A vida nos reserva surpresas que podem ser desagradáveis, mas que na maioria das vezes nos trazem também lições.
Severino acabara de deixar o plantão no hospital, era sexta-feira. Ele, apesar de cansado, resolvera dar uma passadinha rápida na feira. Quem sabe talvez arrumasse companhia para aquela noite e pudesse terminá-la num motel bem acompanhado?
Entrou em seu automóvel último modelo, comprado com muito sacrifício e trabalho, e depois de rodar alguns quilômetros para chegar ao local e tantos outros para conseguir onde estacioná-lo, finalmente se viu sentado diante de uma mesa de uma das barracas, bem localizada, pois era próxima ao banheiro - e para quem gostava de uma cervejinha como ele, era o ideal.
Pediu uma "gelada", tomou alguns goles, colocou a chave do carro e o celular "MPtudo" sobre a mesa e acompanhando o frenético ritmo, balançava a perna, doido para encontrar uma parceira e também mostrar o bom forrozeiro que era desde menino, em sua pequena cidade da Paraíba.
Não demorou muito e surgiu-lhe à frente aquela morena, que para descrevê-la eu perderia muito tempo e talvez o interesse de vocês. Ela era "muita areia para o caminhão dele", como se diz popularmente. Ele não era bonito. Era apenas comum, mas estava bem vestido e a chave do carro e o celular mostravam que ele tinha onde cair vivo, sim, pois cair morto podemos fazê-lo em qualquer lugar. E talvez por isso ela o olhasse com aquele olhar de conquista, que o fez não titubear: convidou-a imediatamente a dançar com um gesto discreto de cabeça, ao que ela sorriu, e aceitando, dirigiu-se ao salão.
Ele guardou o celular e a chave do carro no bolso, deixou sobre a mesa o copo de cerveja pela metade, bem como a garrafa, e sorrindo pegou-a pela cintura, alegre. E saíram os dois rodopiando e rebolando gostoso, como exigia a música: "Vamos rebolar gostoso de rosto coladinho, e depois que acabe a dança, fazer um bonequinho".
Seu entusiasmo pela mulher era tanto que ele esquecera do copo que deixara pela metade sobre a mesa, e nem reparou quando dois tipos, aproveitando o amontoado de pessoas que já cercava a barraca, aproximaram-se. E um deles, dando cobertura ao outro, curvou-se sobre a mesa, fingindo olhar para dentro da barraca, enquanto o outro derramava boa quantidade de um pó azul no resto de cerveja que ele deixara, e que certamente beberia ao terminar de dançar.
A música parou, os dois voltaram para a mesa felizes, sorrindo, e já quase se beijando. Ele, porém, quando chegou à mesa, não tomou o restante da cerveja que estava no copo, julgando-a já não gelada. Atirou-o fora, pediu licença à "distinta jovem" e foi ao banheiro. Quando urinava, a seu lado encostou um garoto, que a tudo assistira e baixinho e olhando para os lados, lhe disse:
- Puxa! O senhor deu a maior sorte! Aquela mulher é uma pilantra, eu a conheço daqui, bem como os dois caras que a acompanham e ficaram de longe quando ela se aproximou do senhor.
- O que, garoto? Do que você está falando?
- Olha moço, enquanto o senhor dançava, os caras deixaram cair um pó de um papelzinho no seu copo, eles iam lhe dar o golpe do "boa noite, cinderela", isso aqui tem sido muito comum. E sua sorte foi ter atirado fora o restante da cerveja.
- Tem certeza do que você está falando menino? - disse ele, assustado e já odiando a bela morena com quem talvez até se casasse dados seus modos educados, seu perfume e sua rara beleza. Pensou consigo: ’Piranha da gota serena! Bem que reparei que quando eu a rodava em direção à minha mesa ela oferecia certa resistência, certamente para que eu não visse a ação de seus amigos. O menino não tinha porque inventar tal história. Só podia ser verdade’.
Agradeceu ao menino e trancou-se no reservado, onde levou algum tempo.
- Voltou à mesa onde Luísa, a mulher, ansiosa, o aguardava já com dois copos cheios, e o dele, certamente batizado.
Ele, alegando que a cerveja estava quente, sorrindo e beijando-a no rosto, pediu outra e mais dois copos. Ela ficou meio desconsertada, mas lhe dera tanto mole que estava difícil sair da situação e resolveu tomar a cerveja, batendo seu copo no dele, que o oferecia, e bebera do seu. Depois daria uma desculpa e partiria para outra barraca com os comparsas em busca de outro desavisado.
De repente, surgiu uma pequena confusão, o que é muito comum em um ambiente de bebida e dança. Ela afastou-se da mesa, ficando de costas para ele. Quando a confusão, quase briga, terminou, ela, já sentada, depois de tomar a outra metade da cerveja, começou a sentir uma leve tontura, que aos poucos foi aumentando e: TIBUM!!!
Escorregou da cadeira e, de lado, tombou desacordada no chão. Logo formou-se a "rodinha do sufoco" em torno dela. Ele prontamente abaixou-se para ajudá-la, ao que foi interpelado por um dos comparsas, que era seu irmão:
- Pode deixar, meu amigo, nós vamos ajudá-la - abaixou-se, pegou-a no colo, sem saber o que acontecera, pois ele não vira nada de anormal, e levou-a para o posto médico.
A bela morena, quatro dias depois , quando acordou, jamais saberia que aquele paraibano baixinho e com cara de pedreiro, embora bem vestido, era o dr. Severino Ramos, psiquiatra que deixara o plantão do hospital com algumas amostras grátis de remédios para esquizofrenia, daqueles sossega-leão brabos, e houvera aproveitado a oportunidade da briga para deixar cair em seu copo boa quantidade de pó dos comprimidos que ele picara e amassara no reservado, depois que o menino lhe contou o que assistira. Trouxera em uma das mãos quase fechadas e, depois, ao vê-la ser carregada para o posto médico, dissera baixinho para si mesmo: "BOAS NOITES, CINDERELA". Saíra tranquilamente, passara a mão na cabeça do garoto e colocara uma nota de cinqüenta no bolso da camisa dele.
Surpresa desagradável e revertida.

Nenhum comentário:
Postar um comentário